"Eu passei por várias transformações tecnológicas. E, para mim, a IA bate todas em termos de impacto", diz Michel Abras, professor associado da Fundação Dom Cabral
- carolinesiffert
- 23 de abr.
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Atualizado: 27 de abr.
Profissional com ampla experiência, Michel traz a bagagem de quem já viveu muitas transformações para refletir sobre os rumos da gestão empresarial com a chegada da IA.
Por Caroline Siffert, Analista de Comunicação da Horizonte3

Michel Abras: "Eu acho que a figura do estrategista pode voltar a ganhar força dentro da empresa."
Em uma das salas de um coworking, no centro da capital mineira, em Belo Horizonte, Michel Abras foi logo desmontando um dos entusiasmos mais apressados da era da inteligência artificial. Não, ele não acha que a IA veio substituir especialistas. Também não compra a ideia de que basta acoplar um agente a um processo antigo para que uma empresa, de repente, se torne mais produtiva.
Mestre e graduado em administração pela PUC Minas, hoje professor associado da Fundação Dom Cabral, Abras tem longa trajetória em finanças, estratégia e consultoria para médias e grandes empresas como Vale e Usiminas.
Em conversa com João Gabriel, CEO da Horizonte3, Michel olha para a IA menos como uma promessa mágica e mais como uma máquina de execução em escala. Uma máquina poderosa, sem dúvida, mas ainda assim uma máquina.
“Quem não tem [expertise] não vai saber nem perguntar".
— Michel Abras
A inteligência artificial, na visão dele, não minimiza a expertise humana, pelo contrário, no melhor dos seus usos, ela amplifica o potencial de quem já domina uma linguagem técnica e já conhece o setor em que atua.
O Financial Times, em artigo recente, embasa a fala de Michel ao trazer, em um levantamento, que mais de 60% dos empregados que são melhor remunerados usam IA diariamente, em comparação com apenas 16% dos que ganham menos. No artigo, Chris Pissarides, professor ganhador do Prêmio Nobel de Economia, argumenta que quanto mais tecnologia inteligente inventamos, mais a inteligência de quem as usa importa.
Em finanças, Abras entende que a IA não necessariamente provê uma ruptura teórica. Tendo trabalhado diretamente com Michel Fleuriet, um dos autores mais importantes em finanças, ele segue acreditando que modelos como a análise dinâmica continuarão atuais. Para ele, o impacto maior se materializa em agilidade. O campo já está em grande medida modelado, seja na parte contábil, seja nas decisões clássicas de investimento e financiamento. O ganho da IA parte da escala, da capacidade de dar velocidade à análise e à execução.
É na operação que esse impacto aparece com mais nitidez. Sistemas, fluxos, pagamentos, compras, conciliações, camadas de ERP e CRM, mais o universo paralelo das planilhas, tudo isso forma o terreno fértil em que agentes de IA começam a prometer eficiência. Abras reconhece esse avanço, mas faz a ressalva que separa discurso de transformação real. "IA compila um volume de informação absurdo. Então, se você conhece o setor e sabe o que está procurando, a capacidade de análise cresce demais. O problema é que muita gente ainda quer usar IA para repetir o mesmo framework do jeito que fazia antes, só que mais rápido." Para ele, há ganho, há velocidade, só não há milagre.
Esse é um dos pontos em que Abras insiste mais. Há perda de potencial em aplicar IA em um processo velho. Quando o método está esgotado, a ferramenta tende a reverberar o ruído. Para Michel, é necessário reestruturar a lógica de trabalho, preparar, treinar pessoas e rever papéis para receber a inteligência artificial.
Na visão dele, há uma distinção central para entender o momento:
"Hoje você consegue ensinar um GPT a fazer uma PESTEL, a buscar variáveis, a trazer fontes, a construir cenário. Eu fiz em um projeto recente. Coletei artigos e relatórios, ensinei o sistema a estruturar a análise, conferi as fontes para evitar alucinação, validei com uma empresária do setor, depois joguei isso no NotebookLM e pedi um cenário. Depois, com base nisso, pedi um planejamento estratégico. O resultado foi muito bom. Mas veja: não foi automático. Teve curadoria, checagem, validação e método", diz.
Michel argumenta que a IA é uma executora excelente, compila, cruza, busca, organiza, produz em volume muito acima da capacidade humana. Mas que pode ir além da automação quando, em um novo modelo de operação, combina forças com a capacidade humana.
Aí é que entra o segundo grande ponto da conversa: o retorno do estrategista.
Se em finanças Abras vê um campo mais estável do ponto de vista conceitual, em estratégia ele enxerga uma mudança mais profunda. Em diversos momentos da entrevista, ele cita Amy Webb como uma referência para pensar estratégia no mundo atual. Em estratégia, “o céu é o limite”, disse.
A IA está longe de pensar sozinha, mas ela multiplica a nossa capacidade de ler mercado, organizar sinais, levantar variáveis, construir cenários e explorar possibilidades em profundidade muito maior do que a do velho planejamento feito à base de workshop, post-it e consenso parcial entre executivos.
A abundância de informação, porém, não resolve por si, ela desloca valor. Hoje, o trabalho estratégico passa cada vez mais por selecionar, enquadrar, interpretar e decidir. “O trabalho do consultor hoje é saber o que importa”, afirmou.
É uma frase que vale também para o estrategista dentro da empresa, figura que, segundo ele, pode voltar a ganhar centralidade nos próximos anos.
O problema é que ainda há empresas olhando para a IA como um encaixe pontual, um incremento, e isso reflete em como o mercado tem respondido à integração de agentes no processo. "Corporativamente, eu quase não estou vendo projetos grandes, estruturados, integrados, saindo do papel. O que aparece muito são casos pontuais, otimizações localizadas, gente mostrando um case aqui e outro ali. Ainda vejo muito mais uso individual do que um projeto de empresa mesmo", conta. Michel acredita que isso passa pela perspectiva limitada de muitas empresas em não enxergarem a IA como projeto institucional, com governança, padrão, guardrails.
Apesar das várias ponderações ao entusiasmo, que muitas vezes é acompanhado de uma visão idealista sobre o uso e os retornos com IA, Abras não subestima o poder da inteligência artificial. Com a bagagem de quem já esteve em outros adventos tecnológicos, de tudo o que viu, do mainframe ao microcomputador, da internet aos sistemas corporativos, diz considerar a IA a mudança de maior impacto.
O ponto de Michel é entender que, para acompanhar e ser capaz de reter todo esse poder de transformação, novas estruturas organizacionais e de negócio precisam ser desenhadas para absorver ganhos expressivos com IA.
"Estou sempre pesquisando, está todo mundo aprendendo. Mas, para mim, a grande virada é essa: não dá para tratar IA como modismo individual. Ela exige mudança de método, de papel, de lógica de trabalho. Se você só repete o que já fazia, ela não transforma nada de verdade." Em uma última pergunta sobre outros insights relativos ao futuro com IA, Michel traz sobriedade em meio a tantas novidades, mas reitera que essa é uma tecnologia que veio para modificar cadeias de negócio.




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