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Precisamos falar sobre Cointeligência


Por João Gabriel Alves, CEO e Fundador da Horizonte3



  • A IA generativa amplia a capacidade humana de pesquisa, escrita, análise e criação, mas seus resultados continuam dependendo de direção, contexto, julgamento e validação humana.

  • Em Cointeligência, Ethan Mollick propõe uma forma prática de trabalhar com IA: tratá-la como colaboradora, atribuindo papéis claros, objetivos, restrições e critérios de qualidade, sem confundir utilidade operacional com inteligência humana.


  • O maior risco não está apenas no erro da IA, mas na confiança excessiva que ela pode gerar. Quanto mais plausíveis e sofisticadas forem suas respostas, mais importante se torna manter o humano no comando do processo decisório.



Em 2023, logo após o lançamento do ChatGPT, apresentei a IA a um amigo professor universitário e pós-doutor. Ele ficou encantado com a possibilidade de expandir a sua capacidade de pesquisa usando o ChatGPT. Ele poderia desde fazer resumos até revisar facilmente os seus textos. Porém, uma coisa inesperada aconteceu quando ele pediu ao ChatGPT que lhe trouxesse referências bibliográficas para o novo artigo que estava escrevendo.


Dentre os artigos que a IA lhe recomendou, veio um artigo com um nome absolutamente incrível e atribuído a um professor americano real. Imediatamente ele escreveu diretamente para esse professor, porque não encontrou o artigo em nenhum lugar da internet. A resposta do professor foi: “Eu adoraria ter escrito um artigo com esse nome. Mas, infelizmente, jamais escrevi isso”.


Saímos muito rápido do estágio em que quase ninguém falava sobre IA para um momento em que quase todo mundo vende IA. O livro Cointeligência, do professor de Wharton Ethan Mollick, faz uma imersão bastante didática e realista nas relações entre humanos e IA. O título remete à ideia de que, pelo menos por enquanto, o melhor uso da IA não está na substituição pura da inteligência humana, mas na composição entre ambas. Essa coexistência cria possibilidades relevantes e, ao mesmo tempo, expõe riscos. Para trazê-las à tona, Mollick personifica a IA em diferentes papéis e tenta extrair regras gerais de interação.


O mérito de Cointeligência está menos em prever o futuro da IA e mais em oferecer uma gramática prática para lidar com ela no presente. Mollick não escreve como tecnólogo deslumbrado nem como crítico defensivo. Seu ponto forte é traduzir uma tecnologia instável em regras de uso, hipóteses de trabalho e critérios de interação. Isso torna o livro especialmente útil para profissionais, educadores e gestores que precisam usar IA antes que exista consenso maduro sobre seus limites. Sua principal limitação, por outro lado, decorre do próprio objeto: parte das descrições envelhece rápido, porque os modelos, os produtos e os usos sociais da IA mudam em ritmo muito superior ao de um livro impresso. Ainda assim, essa fragilidade não compromete o argumento central. O valor do livro não está em descrever a versão definitiva da IA, mas em ensinar o leitor a pensar enquanto a tecnologia ainda está se movendo.


Pela primeira vez na história, os humanos estão se relacionando em escala com um software como se houvesse ali uma inteligência análoga à de uma pessoa. Mollick não está dizendo que a IA é uma pessoa. O ponto é pragmático: em muitos contextos, interagimos melhor com esses sistemas quando damos papéis, contexto, objetivos e restrições, como faríamos ao orientar um colaborador. Isso pode ser extremamente produtivo. Trabalhos de atendimento a clientes que dependem em larga medida da adequação da resposta ao problema específico podem se tornar muito mais escaláveis com IA. Como educador, Mollick também discute evidências sobre o impacto positivo da tutoria no desempenho de alunos e mostra como a IA pode tornar possível oferecer algum nível de tutoria em escala. Isso não elimina o professor. Ao contrário, desloca parte de seu papel para o desenho da experiência, a curadoria, o acompanhamento e o julgamento pedagógico.


Mas os riscos são significativos. Ainda que humanos consigam estabelecer uma forte relação de confiança com sistemas de IA, isso pode fazê-los esquecer que esses sistemas não têm compromisso próprio com verdade, responsabilidade ou consequência. Uma IA generativa não “sabe” no sentido humano do termo. Ela processa padrões de linguagem, contexto e probabilidade para gerar respostas plausíveis. Por isso, assertividade e consistência continuam sendo desafios em muitos contextos, especialmente quando a tarefa exige precisão factual, cálculo confiável ou aderência estrita a uma fonte. Isso pode ser valioso em atividades que exigem exploração, ideação e criação, mas desastroso em tarefas que exigem respostas restritas. Como diz Mollick: “A IA não se importa se as palavras são verdadeiras, profundas ou originais, só quer produzir um texto coerente e plausível que deixe o usuário feliz” (p. 101).


O ponto alto do livro me parece ser a tentativa de mapear onde a IA funciona e onde ela não funciona, chegando à noção de técnicas de cointeligência. A conclusão de Mollick é que a separação entre atividades em que a IA melhora a performance e aquelas em que ela piora não é óbvia nem linear. Ele chama essa condição de uma fronteira irregular: a IA pode ser excelente em algumas tarefas complexas e falhar em outras aparentemente simples ou parecidas. Portanto, ela não é previsível como uma máquina tradicional. Em alguns casos, entrega resultados surpreendentemente bons; em outros, produz erros convincentes justamente porque preserva a forma de uma boa resposta.





O livro foi escrito tendo como referência um momento em que o GPT-4 era o modelo mais avançado disponível ao público. Desde então, em um intervalo muito curto, mais empresas entraram na corrida, os modelos avançaram bastante e não há sinal claro de desaceleração. Isso aumenta a capacidade desses sistemas, mas também amplia o nível de confiança projetado neles. Quanto melhores eles parecem, maior o risco de os humanos se sentirem à vontade para abandonar o volante.


Fala-se muito sobre como a IA irá substituir pessoas, mas se esquece que, mesmo após os avanços recentes, esses sistemas ainda dependem de direção, julgamento e validação humana para funcionarem bem na maior parte dos contextos profissionais. Para alcançar bons resultados, é preciso aportar expertise ao processo. Uma pessoa completamente leiga não se torna uma contadora de excelência apenas porque tem acesso a uma IA, se não souber formular boas perguntas, interpretar respostas, reconhecer inconsistências e validar premissas. Por outro lado, profissionais mais juniores podem performar atividades de maior complexidade quando acompanhados de IA, desde que exista supervisão adequada, bons critérios de revisão e clareza sobre os limites da ferramenta.


Para sintetizar como aproveitar ao máximo a IA, Mollick chega a alguns princípios gerais:

  1. Sempre convide a IA para participar: todos os humanos estão aprendendo a se relacionar com a IA. Dada a sua fronteira irregular, precisamos experimentar e descobrir em quais contextos ela funciona, em quais não funciona e em quais exige validação mais rigorosa.


  2. Seja o humano do processo: transferir à IA a responsabilidade por conduzir o processo não é a melhor forma de alcançar bons resultados. A agência, o julgamento e a responsabilidade precisam seguir sendo humanos.

  3. Trate a IA como uma pessoa, mas determine qual pessoa ela é: para restringir os resultados, é importante atribuir à IA um papel específico, explicar o contexto, definir o tipo de contribuição esperada e indicar os critérios de qualidade. A metáfora da pessoa não deve ser confundida com uma descrição literal da tecnologia. Ela funciona como uma técnica de interação.

  4. Parta do princípio de que a IA atual é a pior IA que você vai usar: dada a velocidade com que esse mercado está se transformando, é inadequado assumir que os modelos atuais representam o limite da tecnologia. Em poucos meses, o mercado tem sido surpreendido por modelos melhores, mais baratos ou mais especializados, como aconteceu com o DeepSeek.


Em suma, o livro fala para um público amplo sobre uma noção prática de alinhamento: quais boas práticas devemos adotar para extrair o melhor desses sistemas poderosos, mas ainda instáveis e arriscados quando mal utilizados. Fazendo uma alusão bíblica, não é por outro motivo que a capa da edição brasileira mostra uma mão pegando uma maçã em uma árvore. A IA nos colocou em um novo momento da história humana, com mais capacidade de acessar, combinar e produzir conhecimento, mas também com riscos ainda pouco compreendidos. A postura correta diante desse desafio não é recusar a tecnologia nem aceitá-la ingenuamente. É aprender a trabalhar com ela sem abdicar da responsabilidade humana.


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João Gabriel

CEO e Fundador da H3

Mais de 10 anos de experiência em consultoria de gestão e transformação digital para empresas como ArcelorMittal, Energisa, TAESA, Stellantis e outras.

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João Gabriel
CEO e Fundador da H3

Apoia organizações a desenhar e executar transformações digitais e organizacionais que geram impacto em processos corporativos críticos.

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